DO CIVILIZADO AO PRIMITIVO:

MEU TIO O IAUARETÊ

 

Laura Camila Braz de Almeida - UFBA

 

 

Meu tio o Iauaretê é um monólogo-diálogo, pois em toda a história o narrador fala com um interlocutor que não responde. O título está em tupi e Iauara, ou jaguar, é onça e etê, legítimo, verdadeiro, então Iauaretê quer dizer onça verdadeira. O tio é porque os irmãos da mãe são pais. É para mostrar que seu tio, que é seu pai, é seu ancestral. O conto narra a estória de um onceiro, filho de um branco com uma índia, que relata a um viajante as suas aventuras e caçadas nos gerais. Aos poucos, ele vai desprezando o que é proveniente do homem branco e valorizando o selvagem, o primitivo. O narrador-personagem, no decorrer do conto, vai deixando aflorar a sua alteridade que foi recalcada pelo mundo civilizado. Essa Alteridade ou Outridade é o outro que está recalcado. E, de acordo com Finazzi-Agrò, esse outro é o que se mexe além duma fronteira num "fora" indefinido e indefinível, num exterior sem horizonte que é um interior continuamente recalcado. O que gera o outro é essa fronteira, que não permite a sua ultrapassagem para ser exteriorizado. É constituído a partir da diferença, da multiplicidade e é reprimido, pois esses traços não são considerados positivos. Como não segue os padrões estabelecidos, essa diversidade é negada ao longo da construção literária.

Guimarães Rosa trata de um assunto que é constantemente refreado, porque é inovador, diverso e incomum, causando um efeito de estranhamento, porque rompe com a norma e retira toda a percepção automática do texto. Esse efeito de estranhamento é uma singularização, ou seja, ver o momento, o fato, que é único, pela primeira vez, derrubando o automatismo da percepção e levando o leitor a conhecer mais a realidade através da arte. O escritor singulariza a linguagem e o assunto da história. A primeira é singularizada porque é completamente inovadora e única e o segundo, porque vai falar de antropofagia. Ambos destroem todo o automatismo e causam muito impacto.

A antropofagia significa devoração, é digerir para tornar-se o outro. E esta é encontrada em três momentos no conto: na linguagem, no procedimento e na cena.

 

Na linguagem

 

Para o autor, a linguagem e a vida são uma só. E a literatura, arte da linguagem, surge da vida e está intrínseca nesta. A palavra possui uma magia, uma fascinação que estende-se à magia da narração e à magia da vida. A linguagem usual não é suficiente para descrever e traduzir os personagens e seu contexto histórico-social, para tanto é preciso recriá-la, adequá-la a estória. A língua produz a realidade guima-rosiana. Há um mundo novo, virgem surgindo de seu ventre poderoso e genesíaco. As suas criações lexicais são denominadas neologismos. Como exemplo, quando uma palavra que é usada, comumente, de uma maneira, passa a ter outro significado ou até outra função no texto. Além disso, há palavras que perdem seu termo de contorno unívoco, para transformar-se em plurissigno, em realidade multissignificativa. Ele mexe com o significante. Pega um significado e atribui, de acordo com a sua criatividade extraordinária, vários significantes inventados por ele. Rompe com a barreira estilística, essa forte tradição, para fazer uma revolução na linguagem, devorando-a, para dela extrair a sua outridade recalcada. Com todos esses traços, esse conto representa o estágio mais avançado de Guimarães Rosa em sua experimentação com a língua, porque não é a frase que vai expressar suas idéias, mas apenas a palavra que vai abarcar todo o significado que uma frase quer dizer. Em "Meu tio o Iauaretê", segundo Haroldo de Campos, não é a história que cede o primeiro plano a palavra, mas a palavra que, ao romper em primeiro plano, configura o personagem e a ação, devolvendo a história. A linguagem adequa-se ao conto, ao contexto histórico-social, ao personagem para poder narrar essa estória. Dessa forma, como as palavras traduzem e descrevem o contexto, sofrem um processo de tupinização e regionalização. Esse processo acontece nesse conto, devido ao fato do personagem principal ser um onceiro, descendente de índio e habitar nos gerais.

A antropofagia dá-se na linguagem, quando ele desconstrói o que é pré-estabelecido, o que é comum para gerar o diferente, produzindo um choque, por ser singular. Ele devora o usual e cria o novo, explorando o signo ao máximo. A seguir, estão alguns exemplos da revolução rosiana[1]:

 

1. Criação de palavras, com significado ao lado:

 

Mecê cipriuara, homem que veio pra mim, visita minha (126)

Falando bobagem, munhamunhando (126)

Só pereba, ferida-brava em pernas, essas ziquiziras, curuba. (127)

...tudo sertão bruto, taquiama... (127)

Pintada começa comendo a bunda, a anca. (127)

... tou olhando, olhôlho.(128)

... é tiquira gota d'água... (128)

Anhum sózinho... (129)

...tem mais não, cuéra. (129)

... gritava, nhengava... (133)

... bom bonito, porã-poranga!... (138)

...jaguaretama, terra de onças... (140)

Miei, miei, jaguarainhém, jaguaranhinhenhém... (143)

 

2. Inovação morfológica:

 

Mecê desareia cavalo, eu ajudo. (126)

Aqui não vem ninguém, é muito custoso. (131)

Ti.. agora posso não, aqui é muito lugaroso...(127)

 

3. Linguagem oral e regional:

 

...catinga diferente, catinga aspra. (128)

Tá bom dei'stá! (129)

Cê tem mêdo? (129)

Ei, eu também não sou ridico. (130)

Despois, só na hora é que ficavam sabendo, com muita raiva...(137)

Prosêio não. Se não, 'manhece o dia...(142)

Fui indo pra lá, fui vendo: curuz!(156)

Nem deixei ela arrebitar as orelhas...(130)

Antes, de primeiro, eu gostava de gente... (134)

 

4.      Ausência de artigo:

 

...paçoca é de tamanduá não. (128)

Lua ainda não veio.(128)

 

5.      Posição da negação, da afirmação e do pronome:

 

Nhor sim (126)

Nhor não (126)

Cavalo seu é êsse só?(126)

Mecê enxergou êste foguinho meu, de longe? (126)

...de onça não .(128)

Gosta não que eu pego?(152)

 

No procedimento

 

A Antropofagia está na metamorfose do mestiço Macuncôzo, quando ele nega a civilidade e assume o primitivismo totalmente. Esse processo inicia-se com o conflito da sua identidade. Ele não sabe qual é o seu nome: Tonico, de origem branca, Bacuriquera , indígena ou Macuncôzo, nome dado por um dono de um sítio. Depois diz que não tem nome não. Quer solucionar essa confusão negando todos.

 

Ah ,eu tenho todo nome. Nome meu minha mãe pôs: Bacuriquera. Breó, Beró, também. Pai meu me levou pra o missionário. Batizou, batizou. Nome de Tonico; bonito, será? Antonio de Eiesús... Despois me chamavam de Macuncôzo, nome era de um sítio que era de outro dono, é – um sítio que chamavam de Macuncôzo... Agora, tenho nome nenhum, não careço.

 

Em seguida, admiti o seu parentesco com a onça, por este animal ser um ancestral da sua tribo. Sendo assim, é seu ancestral também. Em virtude desse motivo, ele a chama de tio, já que os tios são considerados pais em tupi. Como ele reconheceu seu ancestral, sente remorso por ter matado tantas onças.

 

... Tinham dúvida em mim não, farejaram que eu sou parente delas... Eh, onça é meu tio, o jaguaretê, tôdas. Fugiam de mim não, então eu matava... (137)

... Mas eu sou onça. Jaguaretê tio meu, irmão de minha mãe, tutira... Meus parentes! Meus parentes!... Ói, me dá sua aqui... Dá sua mão, deixa eu pegar... Só um tiquinho... (145)

 

A partir da paixão pela onça Maria-Maria, ele não quer mais extinguir esse animal.

 

...Elas sabem que eu sou do povo delas. Primeira que eu vi e não matei, foi Maria-Maria...(137)

Nhem? Ela ter macho, Maria-Maria?! Ela tem macho não. Xô! Pa! Atimbora! Se algum macho vier, eu mato, mato, mato, pode ser meu parente o que fôr! (139)

 

Ele começa a refletir sobre a sua mãe e seu pai, rejeitando a sua origem paterna (branca) e valorizando a proveniência indígena, afirmando que sua mãe é tão boa para ele quanto uma onça para os seus filhotes.

 

Meu pai era bugre índio não, meu pai era homem branco, branco feito mecê, meu pai Chico Pedro, mimbauamanhanaçara, vaqueiro dêsses, homem muito bruto. Morreu no Tungo-Tungo, nos gerais de Goiás, fazenda da Cachoeira Brava . Mataram. Sei dêle não. Pai de todo o mundo. Homem burro. (140)

Mãe minha chamava Mar'Iara Maria, bugra. Despois foi que morei com caraó, morei com êles. Mãe boa, bonita, me dava comida, me dava de-comer muito bom, muito, montão... (144)

 

Ao assumir o seu ancestral, o seu totem, vai desgentar, em lugar de desonçar, ele vai desgentar. Todas as pessoas que ele conhecia e que tinha algum defeito condenável, então ele as tocaiava, ou seja, ele as levava para o lugar que as onças estavam , elas devoravam-nas e ele não sentia nenhum remorso por isso. Além disso, as onças que ele conhece, possui nomes próprios e estes ele não criou, ele já sabia. Isso comprova que a sua relação com as onças está cada vez mais íntima, tornando-se até melhor que a relação com os humanos.

A solução para esse conflito de identidade é assumir-se como onça. Ao longo do conto, ele diz ao seu interlocutor que vira onça. E o clímax dessa mudança é a metamorfose final quando ele transformar-se em onça na frente do interlocutor e este mata-o com tiros de revólver. E esse momento é narrado com som onomatopaicos. A antropafagia está nisso tudo, no valor que ele dá ao primitivismo e a rejeição ao civilizado. Está no tratamemto dispensado ao modo de vida selvagem, que é visto como positivo, como também na transformação do homem, com ética branca para a onça com comportamento selvagem.

 

Onça é carrasca. Manhã cê vai ver, eu mostro rastro dela, pipura... Um dia, lua-nova. Mecê vem cá, vem ver meu rastro, feito rastro de onça, eh, sou onça! Hum, mecê não acredita não?(144)

 

Onça larga catinga, a gente acha, se a gente passar de fresco. Manhã cedo, a gente vai lavar o corpo. Mecê quer? Nhem? Catinga delas mais forte é no lugar donde elas pariram e moraram com cria, fede muito. Eu gosto...(145)

 

Eu viro onça. Então eu viro onça mesmo, hã. Eu mio...(146)

 

Desvira êsse revólver! Mecê brinca não, vira o revólver pra outra banda... Mexo não, tou quieto, quieto... Ói: cê quer matar, ui? Tira, tira revólver pra lá! Mecê tá doente, mecê tá variando... Veio me prender? Ói: tou pondo mão no chão é por nada, não, é à-toa... Ói o frio... Mecê tá doido?! Atiê! Sai pra fora, rancho é meu, xô! Atimbora! Mecê me mata, camarada vem, manda prender mecê ... Onça vem, Maria-Maria, come mecê... Onça meu parente... Ei, por causa do prêto? Matei prêto não, tava contando bobagem... Ói a onça! Ui, ui, mecê é bom, faz isso comigo não, me mata não... Eu – Macuncôzo... Faz isso não, faz não... Nhenhenhém... Heeé!...

Hé... Aar-rr^... Aa^h... Cê me arrhoôu... Remuaci... Rêiucàanacê... Araaã... Uhm... Uui... Ui... Uh... uh... êeêê... êê... ê... ê...(158 e 159)

 

Na cena

 

No terceiro momento, a antropofagia realiza-se cena, "concretamente", quando ele devora a onça para adquirir sua coragem.

 

Da pimina eu comia só o coração delas, mixiri, comi sapecado, moqueado, de todo o jeito. E esfregava meu corpo todo com a banha. Pra eu nunca eu não ter medo!(131)

 

A revolução guima-rosiana ultrapassa as barreiras do controle do imaginário, desconstruindo e derrubando a percepção automática, singularizando suas idéias e a sua linguagem, por causa da sua criação lexical (neologismo) e valor pela oralidade regional. Também ultrapassa porque cita a antropofagia sem traços negativos e como um dado existente na cultura brasileira.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

LIMA, Luiz Costa. Antropofagia e controle do imaginário. In: Pintando nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

CAMPOS, Haroldo de. A linguagem do Iauaretê. Metalinguagem: Ensaios de Teoria e Crítica Literária. São Paulo: Editora Cutrix.

FINAZZI-AGRÒ, Ettore. O duplo e a falta, construção do outro e identidade nacional na Literatura Brasileira[2].

GALVÃO, Walnice Nogueira. O impossível retorno. In: Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978.

RANGEL, Paschoal. João Guimarães Rosa e suas inovações sintáticas. In: Ensaios de Literatura: Uma introdução à leitura de 16 autores brasileira.. Belorizonte: Editora o lutador, 1984.

ROSA, Guimarães. Meu tio o Iauaretê. In: Estas estórias; nota introdutória de Paulo Ronai. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.



[1] Todos os exemplos supra citados foram extraídos de: ROSA, João Guimarães. Meu Tio o Iauaretê. In:Estas Estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969

[2] Neste texto, utilizado no ensaio, não se encontrava à minha disposição as suas referências bibliográficas.